O efeito Ozempic e a capacidade de redesenhar portfólios
Como a Nestlé transforma uma ameaça ao consumo de alimentos em uma nova linha de receita

O que uma gigante dos alimentos processados deve fazer quando uma injeção semanal elimina a fome do seu consumidor principal? A reação instintiva do mercado costuma ser a negação ou o lobby defensivo. A Nestlé, contudo, preferiu recalcular a rota ao transformar a perda de apetite provocada por medicamentos como Ozempic e Wegovy em uma nova oportunidade de receita.
Ao aplicar inteligência artificial e ciência nutricional para criar produtos específicos para usuários de análogos de GLP-1, a multinacional responde a uma mudança estrutural de comportamento. Quem consome menos calorias precisa de maior densidade de nutrientes, preservação de massa magra e suporte digestivo. O produto antigo perde volume, mas o novo ganha valor agregado.
A lição da adaptação forçada
Essa virada reflete um padrão visto em diversos setores da economia. Quando o ecossistema de tecnologia migrou das licenças perpétuas para o modelo de assinatura, as empresas de software que tentaram proteger suas margens antigas desapareceram. As que sobreviveram redesenharam seus produtos para a nova realidade do cliente, mesmo que isso significasse canibalizar o próprio faturamento no curto prazo.
Ainda existem lacunas nessa equação. Não está claro se a dependência desses medicamentos criará um segmento consumidor permanente ou se os hábitos alimentares mudarão de forma irreversível caso os tratamentos sejam interrompidos. Há também o risco de supersegmentar o portfólio para uma tendência que ainda busca seu ponto de equilíbrio econômico.
A questão que fica para qualquer conselho de administração não é sobre nutrição ou farmacologia. Quando uma inovação externa reduz drasticamente a necessidade pelo seu produto principal, a sua empresa tenta proteger o passado ou encontra uma forma de monetizar a nova restrição do cliente?

ROGERIO CUNHA
Autor deste artigo
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